1 de jun de 2010

BOCALOM DESAFIA OS VIANA E QUER CULTIVO DE SOJA NA AMAZÔNIA


Foto: Altino Machado/Especial para Terra

Tião Bocalom (PSDB) desafia o favoritismo do senador Tião Viana (PT-AC) na disputa pelo governo do Acre Foto: Altino Machado/Especial para Terra

O pré-candidato tucano ao governo do Acre desafia a hegemonia política da família Viana no Estado


Altino Machado

Direto de Rio Branco

Professor de matemática do Ensino Médio, Tião Bocalom (PSDB), 57 anos, nasceu em Bela Vista do Paraíso (PR), mas se mudou para o Acre com a família há 24 anos. Após instalar uma serraria no município de Acrelândia, Bocalom foi eleito prefeito da pequena cidade. Ele já fez parte da coligação Frente Popular do Acre, liderada pelo PT, e que governa o Estado há 12 anos, mas se tornou o principal defensor do cultivo de soja orgânica na região e da devastação da Amazônia de modo racional.

"Não vejo problema algum em se plantar soja no Estado do Acre, na Amazônia. Na região de Ponta Grossa, no Paraná, se planta soja orgânica e por que não se pode plantar soja em Acrelândia? Fiz experiência com plantio de soja no Acre e gostei. Posso afirmar que produz bem. Existe um empresário que continua fazendo experiências e este ano plantou cerca de 100 hectares. Ele vem provando que a soja no Acre é um produto de alta rentabilidade. O que a gente precisa acabar é com essa história de deixar a mata em pé e a população que se dane."

Bocalom é um duro crítico do "governo da floresta", não reconhece nele ações de sustentabilidade e afirma que "o que existe é muita mentira e enganação". Segundo o tucano, está sendo dada sustentabilidade para meia dúzia de empresários grandes, que estão tirando madeira de qualquer jeito.

"Não existe desenvolvimento sustentável no governo do Acre. É mentira o que eles dizem. Nos últimos 20 anos, aconteceram os maiores desmatamentos no Acre. A sustentabilidade pregada pelo governo estadual é puro engodo", acrescenta.

Porém, um dos grandes desafios do político é enfrentar nas próximas eleições o favoritismo do senador Tião Viana (PT-AC) na disputa pelo governo do Acre. Bocalom acredita que vai derrotar Tião Viana no primeiro turno. "Se houver segundo turno, o PT sabe que perde a eleição. O próprio Jorge Viana tem dito no interior do Estado: ou o PT ganha no primeiro turno ou perde no segundo turno. O PT está caindo de ponta cabeça."

Leia na íntegra a entrevista de Tião Bocalom concedida ao Terra:

Terra - No ano passado, durante evento do PSDB no Acre, com a presença da senadora tucana Marisa Serrano, o senhor disse que a floresta precisava ser realmente derrubada para que pudesse existir progresso no Acre. O senhor ainda pensa assim?
Tião Bocalom - Eu nunca disse isso. Quem escreveu isso, mentiu. Nunca disse que o negócio seja destruir florestas e nem acabar com toda a floresta. A prova disso é minha preocupação quando fui prefeito de Acrelândia, onde fiz ocupação racional urbana em 400 hectares. Apenas 180 hectares foram ocupados efetivamente e o restante ficou como área de preservação permanente. Eu nunca disse que o nosso objetivo é acabar com a floresta. Entre uma árvore, um cidadão ou um bicho, sou a favor do cidadão, do ser humano. Se você não der alternativa para as pessoas que têm área desnatada, sobretudo os pequenos, não adianta nada. Entre derrubar dois ou três hectares de floresta e passar fome, sou a favor que derrube os três hectares de floresta, para que possa plantar, colher, comer e sobreviver.

Terra - Quando chegou no Acre, há 24 anos, o senhor era dono de uma das maiores serrarias de madeira. Por que seu empreendimento se inviabilizou?
Tião Bocalom - O meu empreendimento não se inviabilizou. Quero dizer que tenho orgulho de ter vindo pro Acre para montar uma indústria madeireira. Fomos a primeira a aprovar um projeto de manejo madeireiro no Acre, de 1988 para 1989. Desde aquela época eu já tinha preocupação de a gente usar a floresta de forma sustentável e racional.

Terra - Mas é fato que o seu empreendimento não se viabilizou. Ele não existe mais.
Tião Bocalom - Certo. Ele não existe. No momento em que me elegi prefeito de Acrelândia, em 1993, tomei uma decisão junto com minha família porque era impossível cuidar da gestão pública e privada simultaneamente.

Terra - Pode-se dizer que foi quando o senhor deixou a vida de madeireiros para virar político profissional?
Tião Bocalom - Veja bem: não me tornei político profissional. Jamais quis isso. Eu possuía uma serraria e a vendi para poder cuidar da gestão pública e provar que na gestão pública se pode trabalhar como na iniciativa privada. Tudo que eu havia aprendido na iniciativa privada trouxe para a gestão pública. Quando deixei a prefeitura fui montar uma loja de material de construção, o que prova que eu não queria ser um político profissional. Depois fui convidado pela coligação Frente Popular do Acre, da qual faz parte o PT, que domina o Estado, para participar da vida pública.

Terra - A região de Acrelândia é uma das mais devastados do Acre e o senhor é um dos maiores entusiastas da entrada da soja no Estado.
Tião Bocalom - É uma das mais devastados porque Acrelândia tem quatro projetos de assentamentos que foram criados pelo governo federal. Sempre achei que a gente não deve devastar tudo, como se fez no Paraná. Vim de lá e sei que lá foi devastado praticamente tudo. Onde nasci, por exemplo, tínhamos sérios problemas com erosão por causa da devastação que se fez de forma irracional. Sou a favor que se faça a devastação de forma racional. Sou a favor que se faça o desmatamento de forma racional. As margens de rios e igarapés em nosso governo vamos correr para recuperar todas elas. Sou a favor do reflorestamento de áreas degradadas. Veja que o que penso não é nada disso do que pregam do Tião Bocalom.

Terra - Mas soja no Acre não parece nada racional.
Tião Bocalom - Calma. Desenvolvimento sustentável começa dentro de casa, com as pessoas tendo o que comer. Com mesa farta, até a saúde será melhor, coma mais entusiasmo para tocar a vida e ganhar dinheiro. Não vejo problema algum em se plantar soja no Estado do Acre, na Amazônia. Não vejo problema nenhum mesmo. Na região de Ponta Grossa se planta soja orgânica e por que não se plantar soja em Acrelândia? Fiz experiência com plantio de soja no Acre e gostei. Posso afirmar que produz bem. Existe um empresário que continua fazendo experiência e este ano plantou cerca de 100 hectares. Ele vem provando que a soja no Acre é um produto de alta rentabilidade. O que a gente precisa acabar é com essa história de deixar a mata em pé e a população que se dane. Não é por aí. Temos uma área bastante aberta no Acre que pode ser aproveita pela soja sem que seja necessário derrubar um pé de pau. Dá pra gente dobrar nosso rebanho bovino sem derrubar um pé de pau. Da pra gente plantar soja, ampliar o plantio de cana para nossa usina de álcool pronta pra funcionar, sem que seja necessário derrubar um pé de pau.

Terra - Nesse sentido, o senhor pensa igual aos petistas que governam o Acre há 12 anos. Reconhece que eles têm um bom programa de governo?
Tião Bocalom - Eu não vejo sustentabilidade no governo que aí está. O Parque da Maternidade, por exemplo, é um esgoto canalizado, a céu aberto, que é jogado in natura no rio Acre. A sustentabilidade exigiria uma estação de tratamento para aquela que é considerada a maior intervenção urbanística na capital. Outro exemplo é a Reserva Extrativista Chico Mendes. Foi durante o "governo da floresta", do PT, que aconteceu o maior desmatamento dentro da maior reserva do Acre. Era uma reserva para ser exemplo para o mundo, mas que foi desnatada sem piedade. Isso aconteceu porque não houve comprometimento desse "governo da floresta" com a verdadeira sustentabilidade. O que existe é muita mentira e enganação. Está sendo dada sustentabilidade para meia dúzia de empresários grandes, que estão tirando madeira de qualquer jeito. Está certo que existem projeto, mas são projetos de corte raso. Sou contra o modelo que está sendo adotado. Não existe desenvolvimento sustentável no governo do Acre. É mentira o que eles dizem. Nos últimos 20 anos aconteceram os maiores desmatamentos no Acre. A sustentabilidade pregada pelo governo estadual é puro engodo.

Terra - Por que o PSDB, partido de expressão nacional, não consegue demonstrar força no Acre? É pelo fato de não ter um plano de governo para se contrapor ao dos petistas?
Tião Bocalom - Não é nada disso. Em meados dos anos 1990, quando Jorge Viana, do PT, queria chegar à prefeitura de Rio Branco, a capital do Acre, ele buscou o apoio do PSDB porque já éramos um parte grande. Depois, quando o mesmo Jorge Viana queria ganhar o governo do Acre, pela amizade que ele tinha com a senadora Marina Silva, que por sua vez tinha amizade com a primeira-dama Ruth Cardoso, ele conseguiu outra vez usar o PSDB como escada. Botou alguém do PSDB como vice-governador dele. Em 2002, percebemos que a prometida sustentabilidade econômica, social e ambiental não viria. Os 40 mil empregos não foram gerados nem as 20 mil casas, a saúde não se tornou de primeiro mundo e muito menos o apoio ao produtor rural. Tomamos rumo próprio e hoje temos nossa pré-candidatura ao governo estadual. Nosso projeto é produzir para empregar e vai mostrar de verdade o que é sustentabilidade e não enganação, como acontece no governo do PT.

Terra - Mas o PT já está há 12 anos no governo estadual. O senhor acha que ele pode chegar aos 16 ou 20 com o senador Tião Viana?
Tião Bocalom - Se depender do povo acreano, não chegará. Ganhamos a prefeitura de Feijó enfrentando toda a máquina do governo e do PT. A esperança do povo é de fazer uma grande mudança. O povo acreano está cansado. A partir das próximas eleições, com certeza o PT não estará mais à frente do governo do Acre. Estará um grupo comprometido com a seriedade, com a transparência e com o verdadeiro desenvolvimento sustentável.

Terra - O senhor acredita que teremos segundo turno no Acre?
Tião Bocalom - Do jeito que está indo, acredito que vamos no primeiro. Se houver segundo turno, o PT sabe que perde a eleição. O próprio Jorge Viana tem dito no interior do Estado: ou o PT ganha no primeiro turno ou perde no segundo turno. O PT está caindo de ponta cabeça. Pode ter certeza: o próximo governador do Acre será Rodrigo Pinto, do PMBD, ou eu, do PSDB. O próximo governador será da oposição.